Casamentos mistos: entre a escravidão e a liberdade Franca-São Paulo/Brasil, século XIX

  • Maísa Faleiros Cunha Núcleo de Estudos de População "Elza Berquó" - Nepo / Universidade Estadual de Campinas - Unicamp
Palavras-chave: casamento misto, população livre, população escrava, século XIX.

Resumo

Esse artigo busca ampliar o estudo sobre os casamentos mistos, temática ainda pouco explorada no âmbito da historiografia brasileira. A presente análise focalizou os casamentos entre pessoas de estratos sociais distintos: livres e escravos ou livres e descendentes de escravos(as) africanos(as). Por meio do cruzamento nominativo das atas de casamento da paróquia Nossa Senhora da Conceição de Franca, São Paulo (1806-1887), da Lista Nominativa de habitantes de 1836 e de inventários post mortem, constatamos que a tendência de formar famílias mistas correspondia mais às mulheres livres do que aos seus pares homens; legitimar o matrimônio mostrou-se uma estratégia para garantir o status social, a reprodução do modelo de família preconizado pela Igreja e pelo Estado e o respeito da elite local, o reconhecimento da prole e a transmissão de bens. As famílias mistas nos permitem entender mais a fundo o dinâmico e complexo processo de formação e composição familiar, a mestiçagem e as relações íntimas estabelecidas entre pessoas livres, egressas da escravidão e cativas.

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Biografia do Autor

Maísa Faleiros Cunha, Núcleo de Estudos de População "Elza Berquó" - Nepo / Universidade Estadual de Campinas - Unicamp

Graduação em Ciências Sociais, mestrado e doutorado em Demografia.

Pesquisadora do Núcleo de Estudos de População "Elza Berquó" (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas.

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Publicado
2017-09-13
Como Citar
Cunha, M. F. (2017). Casamentos mistos: entre a escravidão e a liberdade Franca-São Paulo/Brasil, século XIX. Revista Brasileira De Estudos De População, 34(2), 223-242. https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0022
Seção
Artigos originais