O mix contraceptivo eternamente obsoleto no Brasil e seu legado.

  • Suzana Cavenaghi Pesquisadora independente
  • José Eustáquio Diniz Alves Pesquisador independente
Palavras-chave: Anticoncepção, Planejamento familiar, Brasil, Comportamento reprodutivo

Resumo

A transição da fecundidade ocorreu de maneira rápida no Brasil na ausência de programas de planejamento familiar e, mais impressionante, em um contexto de ilegalidade na provisão dos meios para a autorregulação da fecundidade. Esses eventos não ocorreram sem consequências. Com base na literatura e nos fatos registrados durante esse período, o artigo discute, primeiro, como a resistência à implementação de programas de planejamento familiar nas décadas de 1960 a 1980 contribuiu para o mix contraceptivo obsoleto, já nos anos 1990. Em segundo lugar, abordando os problemas em torno da coleta de dados de contracepção na Pesquisa Nacional de Saúde e fazendo um ajuste nos dados, são analisadas as tendências na prevalência contraceptiva de 1986 a 2013, mostrando que o mix de métodos continua muito concentrado nos mesmos dois métodos, um regime ainda mais obsoleto, com a pílula diária trocando de lugar com a esterilização feminina. Por fim, são discutidas algumas características da fecundidade associadas ao mix contraceptivo obsoleto, que ainda prevalece no final da transição da fecundidade. Argumenta-se que isso poderia ser evitado ou minimizado se políticas e leis fossem baseadas apenas nos direitos reprodutivos de todas as pessoas. 

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Biografia do Autor

Suzana Cavenaghi, Pesquisadora independente
Doutora em demografia pela Universidade do Texas-Austin e professora e pesquisadora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atuando no Programa de Pós-Graduação e População, Território
e Estatísticas Públicas

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Publicado
2019-12-26
Como Citar
Cavenaghi, S., & Diniz Alves, J. E. (2019). O mix contraceptivo eternamente obsoleto no Brasil e seu legado. Revista Brasileira De Estudos De População, 36, 1-29. https://doi.org/10.20947/s0103-3098a0103
Seção
Artigos originais